domingo, 9 de julho de 2017

LYGIA FAGUNDES TELLES

Anna & Elena  Balbusso 

Após  30 dias longe daqui e do espaço de vocês ,
devido a trabalho árduo , estou voltando .
Partilho neste reencontro  , texto da escritora
 Lygia Fagundes Telles , que  do alto de seus 94 anos , 
 continua firme , lúcida e sonhadora , 
como convém a todos nós .

" Me alinhei ao lado dos humildes   e descobri
que não era bastante  humilde para ficar ao lado
deles , falsa a minha curvatura , falso o despojamento .
Me alinhei ao lado dos fortes e vi que não era
suficientemente  forte para sustentar por mais
tempo  aquela arrogância , representava planar
sobre os outros  porque acreditei que assim não
seria esmagada pelo rolo compressor .
Teria que subir acima deste rolo , pisar nele
- ah , meu Deus , mas era isso o que eu queria ?
Não , também não era isso .
Quis  ficar só para ser verdadeira , 
agora  queria apenas ficar só e então sonhei 
que era uma rainha num coche desgovernado ,
em vão chamei por alguém  que eu sabia
 por perto  , onde ?
E o coche rodando para trás , para os lados ,
sem cavalos  e sem cocheiro .
Consegui descer e encontrei uma gata cor de mel 
com seu gatinho , me  aproximei enternecida ,
e o pai ?  perguntei e apareceu um leão de juba
desgrenhada e olhar de pedra .
Corri , tinha uma mulher na casa mas a mulher
gesticulava  e não podia fazer nada enquanto o 
leão ia fechando o cerco , acordei com as pisadas
na minha retaguarda .
Mas quem  me detesta  tanto assim  para me 
atacar  até no sonho ?     quis  saber e  nesse
 instante   vi  minha imagem refletida no    espelho . "

in , " A Disciplina do Amor "

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sábado, 10 de junho de 2017

FIOS DE SEDA

Julmard  Vicent 

" Sempre acreditei que da minha boca  
 saíam  apenas palavras  , e que só elas 
podiam apaziguar a minha morte .
Hoje sei que da minha boca sai um fio, 
transparente e tenaz como uma  insônia  
que te amarrou à  minha vida para sempre ."

Amalia Bautista 

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quarta-feira, 31 de maio de 2017

NO FINAL DA VIAGEM

Barbara Issa Wagnerovà 

" ... E no final da viagem , essa lição de ternura e 
compreensão , que me marcará a alma até o 
último  instante desta aventura no tempo :
sempre algo de bom ficou , de mim ,
nos que me conheceram ;
sempre algo de bom ficou , em mim ,
de tudo que conheci .
O nome desta coisa tão simples e verdadeira 
é alegria .
 E ela é a razão de ser da  própria vida .
Meus amigos , valeu !"

Daniel Lima 
in " Poemas "

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

ANIVERSÁRIO


Há  sete anos  nascia este blog com o intuito 
de  repartir com os amigos ,   poesia e prosa que
eu guardava nos cadernos da vida .
Com o tempo ,  acrescentei música e fui  partilhando 
 textos  de autores que acabara de conhecer .
Fiquei perplexa quando constatei a presença 
de vários artistas neste espaço .
Poetas , escritores , professores , fotógrafos , pintores ,
entre outros , estavam me acompanhando .
Mergulhei em cada publicação de vocês 
e cresci  bastante .
Estamos  juntos durante estes anos ,
nos visitando  e nos  acarinhando ,
seja por nosso  trabalho , nascimento  e  casamento ,
 de filhos e netos ,viagens , livros publicados , 
  e tudo que ocorre a nossa volta .
Num mundo tão violento e hostil , 
saber que  pertencemos a  
estas ilhas de doçura é uma benção .
Agradeço muito  a vocês .
Partilho , uma vez mais , o poema
GUARDAR , de António Cícero que 
sintetiza , a meu  sentir , o que fazemos .
Beijos  

" Guardar uma coisa não é escondê-la 
ou trancá-la .
Em cofre não se guarda coisa alguma .
Em cofre perde-se a coisa à vista .
Guardar uma coisa é olhá-la , fitá-la ,
mirá-la por admirá-la , isto é ,
iluminá-la  ou ser por ela iluminado .
Guardar uma coisa é vigiá-la , isto é ,
fazer vigília  por ela , isto  é ,
velar por ela , isto é , estar acordado 
por ela , isto é , estar por ela ou ser por ela .
Por isso se escreve , por isso  se diz ,
por isso se publica , por isso se declara e
declama um poema :
Para guardá-lo :
Para que ele , por sua vez ,
guarde o que guarda :
Guarde o que quer guardar um poema :
Por isso  o lance do poema :
Por guardar-se o que se quer guardar . "

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quinta-feira, 27 de abril de 2017

ANSEIOS

Jean Paul Nacivet

" Só quero lembrar
se o tempo for todo meu .

Só anseio lembrança
se não houver passado .

Bruma e espuma ,
apagam o tempo que não amei .

E eu amei 
para ser tudo , todos ,  sempre .

Para te visitar
esquecerei a terra
e apagarei as estrelas .

E irei pelos teus olhos,
até o mundo voltar a ter princípio .

Sou eu , dirás ,
E o tempo será lembrado ."

Mia Couto 
in , Tradutor de Chuvas "

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.






sábado, 8 de abril de 2017

A PÁSCOA VEM CHEGANDO ...

Giotto 

( ... )


 " Quem  deseja Feliz Páscoa , deseja ao outro 
uma ressurreição .
Deseja que o que morreu  de cansaço ou de tédio 
ressuscite , que os desiludidos  recuperem o ânimo ,
que os desesperados esperem uma vez mais
 pela última vez   , que quem calou assovie , 
que os amargos tenham um súbito  ímpeto
de doçura , que os suicidas suspendam os gestos 
e os assassinos  petrificados se arrependam .
Feliz Páscoa , responde o outro ,
o corpo invisível , o corpo dos desejos subindo
aos céus , anunciando que um outro mundo
existe porque é nele que moramos em sonhos ,
sem cruz , sem calvário, sem sangue , 
onde uns amam os outros , 
um pedaço de pão  e um copo de vinho ,
amigos em volta , a fé no futuro ,
um projeto de vida  e a certeza-
- ah , que certeza -
de que um pai onipotente zela por nós 
e jamais nos abandonará . "

Rosiska Darcy de Oliveira  
na crônica ,"  O condenado à vida "

 No próximo domingo ,
16 de abril , comemoraremos
a Páscoa .
Desde já ,  desejo a todos
vocês ,  queridos amigos , 
que ela seja alegre e abençoada .
FELIZ PÁSCOA   !


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segunda-feira, 20 de março de 2017

CANÇÃO DE OUTONO

Leonid  Afremov 

 Hoje ,  20 de março , às 07:20 horas ,
 aqui no no hemisfério sul , começou o outono .
Partilho com vocês poema de Cecília Meireles que 
nos fala de folhas  e  de outono , mas também ,
de amor , tristeza e saudade .

" Perdoa-me , folha seca ,
não  posso cuidar de ti .
Vim para  amar neste mundo ,
e até do amor me perdi .
De que serviu tecer flores
pelas areais do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração ?

E não pude levantá-la ! 
Choro pelo que não fiz .
E pela minha fraqueza 
é que sou triste e infeliz .
Perdoa-me , folha seca ! 
Meus olhos sem força estão 
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão ...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim .
Deixo-te  minha saudade 
- a melhor parte de mim .
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão .
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão ..."

Cecília Meireles 

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domingo, 12 de março de 2017

CLARICE LISPECTOR , SEMPRE

Anna  &  Elena  Balbusso 

Leio e releio Clarice .
Assim , partilho com vocês , uma vez mais ,
a crônica  "POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS" ,
contida  no livro  ,
 " A DESCOBERTA DO MUNDO"
que publiquei em outubro de 2014 .

" Havia a levíssima embriaguez  de andarem juntos ,
a alegria  como quando se sente  a garganta  um
pouco seca  e se vê que , por admiração , 
se estava de boca  entreaberta :
eles respiravam de antemão  o ar que estava
à frente  , e ter esta sede  era a própria água deles .
Andavam por ruas  e ruas falando e rindo, 
falavam e riam  para dar matéria e  peso à levíssima
embriaguez  que era a alegria da sede deles .
Por causa  de carros e pessoas , às vezes eles
se tocavam , e ao toque - a sede é a graça ,
mas as águas  são uma beleza de escuras - e ao
toque  brilhava o brilho da água deles , 
a boca ficando um pouco mais seca de admiração .
Como eles admiravam estarem juntos !
Até que tudo se transformou  em não .
Tudo se transformou em não quando eles quiseram
a mesma alegria deles .
Então a grande dança dos erros .
O cerimonial das palavras desconcertadas .
Ele procurava e não via, ela não via 
que ele não vira , ela que ,
estava ali , no entanto .
No entanto ele que estava ali .
Tudo errou , e havia a grande poeira das ruas ,
e quanto mais erravam , mais com aspereza queriam ,
sem um sorriso .
Tudo só porque  tinham prestado atenção ,
só porque  não  estavam bastante distraídos .
Só porque , de súbito exigentes e duros  ,
quiseram ter o que já tinham .
Tudo porque quiseram dar um nome ;
porque quiseram ser , eles que já eram .
Foram então aprender que , 
não se estando distraído ,
o telefone não toca ,
e é preciso sair de casa 
para que a carta chegue ,
e quando o telefone toca ,
o deserto da espera já cortou os fios .
Tudo , tudo por não estarem mais distraídos ."

Clarice Lispector 

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quarta-feira, 1 de março de 2017

TER MÃE

Sandra Bierman

( ...)

"  Ter mãe é a primeira chance que a vida nos oferece .
Nascer é uma dor surda , um espanto tamanho -
e quanto tempo dura um espanto ,
 perguntou um poeta-
uma sufocação do mundo que nos entra pelos pulmões ,
rarefeito , um medo tão grande , uma solidão infinita 
face a esta luz súbita  que inaugura o primeiro dia .
Nascer é tão difícil que , não fora o calor de um corpo
que não será nunca esquecido , morreríamos ali mesmo ,
desistiríamos  ao primeiro grito que é sempre 
tão desesperado , um pedido de socorro  que vara
a opacidade das coisas .
Nascer é um susto terrível . Maior , só viver .
O risco de pôr-se de pé , de atravessar estas imensas
distâncias  que levam de um lado a outro da sala ,
pisando os nós da madeira  como um roteiro incerto ,
 buscando o frágil  equilíbrio  de músculos 
e ossos imaturos , esse percurso impossível , 
mais arriscado que um salto mortal sem rede ,
termina em braços abertos .
Esse é o final feliz , que abre as portas 
de tantos  possíveis .
Se aceitamos correr tantos riscos na tentativa
de aprender caminhos  é porque , 
em algum lugar da memória mais longínqua ,
esperamos ainda que o mundo nos acolha 
de  braços abertos ."

Rosiska Darcy de Oliveira 
in , " Pássaro Louco " ,
crônica " Ter Mãe "

A página de hoje é para minha mãe que
completa 92 anos ,
 sempre ao nosso lado  .
Peço a Deus que a conserve entre nós 
mais tempo com saúde e alegria .
Beijos com muito  amor de
toda a família .

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domingo, 19 de fevereiro de 2017

FAZES-ME FALTA

Erica Hopper 

( ...)

" Eu só queria  ver de que material era feito 
o teu amor por mim .
 Precisava de escangalhar o teu coração 
para o fazer  encaixar no meu .
E agora tenho que o desencaixar 
outra vez  para sair deste limbo .
Mas não sei como .
Sem o teu coração não consigo amar -
não me abandones outra vez .
Logo eu , que amava o mundo inteiro,
não é ?
 Amar  em abstrato é muito mais
ágil  do que amar em concreto ."

Inês Pedrosa 
in , " Fazes-me falta "

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MÚSICA DE HOJE : RECONVEXO


Reconvexo , é o título da composição feita
por Caetano Veloso , famosa na voz de sua
irmã , Maria Bethânia, escrita especialmente
para ela interpretar .
A música é um grito de construção identitária 
e percorre o mundo da Bahia , fazendo 
referências  também à cultura internacional .
O gingado e o ritmo bem marcado da
composição  nos contagia .

Letra da música :

" Eu sou a chuva   que lança a areia do Saara 
Sobre os automóveis de Roma 
Eu sou a sereia que dança , a destemida Iara 
Água e folha da Amazônia  

Eu sou a  sombra da voz da matriarca da Roma Negra 
Você não me pega , você nem chega a me ver 
Meu som te cega , careta quem é você ?
Quem não sentiu o suingue de Henri Salvador 
Quem não seguiu o Olodum balançando o Pelô 
E quem não riu com a risada de Andy Warhol
Que não , que não ,  e nem  disse que não    

Eu sou o preto norte americano forte 
Com um brinco de ouro na orelha 
Eu sou a flor da primeira música a mais velha 
Mais nova espada e seu corte 

Eu sou o cheiro dos livros desesperados ,
 sou Gita Gogoya 
Seu olho me olha , mas não me pode alcançar 
Não tenho escolha , careta , vou descartar 
Quem não rezou a novena de Dona Canô 
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor 
Quem não amou a elegância sutil de Bobô 
Quem não é recôncavo  e não pode ser reconvexo . "

Caetano Veloso 


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

FEVEREIRO CHEGOU ...

Leonid  Afremov 

" Estão em mim as estações 
 como se fossem uma só 
as quatro sempre estão em mim 
são quatro faixas de um abismo
da aurora  até o ocaso 
a chuva  o verde  o sol o vento 
sem me desvelar estão em mim
são a missão recém nascida 
e são os mortos do meu mundo 
minhas ocultas estações 
me fazem feliz /  sofrem por mim 
cada uma delas tem um céu
e cada céu é um espelho 
que fala de todos e de mim 
as estações se congregam 
se reconhecem e se abraçam
as quatro  sempre estão em mim 
sou seu fervor suas folhas mortas 
seu granizo  suas colheitas 
sua porta aberta seus cadeados
sua insolação seus aguaceiros 
como um destino estão em mim
as estações se embaralham
para se mesclar com minha vida 
para se juntar com minha morte 
e então fugir de mim ."

Mario Benedetti  
no poema , " As Estações "

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

POEMA DE HOJE ...

Steven  Graber 

" As  palavras começam a ficar velhas ; tem
dores nas articulações e rangem ,  de vez 
em quando , sem razão ; reclamam  óleos   
e resinas , tempo e açúcares mais lentos .

Mas também estou velha demais  para 
oficinas  , tão cansada de livros e papéis ,
morta  por viver outras coisas - por amor ,

talvez  espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios 
no pulso da areia . Mas quantos dos teus
beijos perderia ? Perdoem-me os  que

ainda esperam por mim . Não sei se volto . "

Maria do Rosário Pedreira 

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sábado, 7 de janeiro de 2017

MÚSICA DE HOJE ...

MAIOR 
Dani Blak
( participação de Milton Nascimento )

 " Eu sou maior do que era antes 
Estou melhor do que era ontem
Eu sou filho do mistério  e do silêncio
Somente o tempo vai me revelar quem sou 
( bis )

As cores  mudam 
As mudas crescem
Quando se desnudam
Quando não se esquecem 

Daquelas dores que deixamos para trás
Sem saber que aquele choro valia ouro
Estamos existindo entre mistérios
e silêncios 
Evoluindo a cada lua , a cada sol 

Se era certo ou se errei
Se sou súdito , se sou rei
Somente atento à voz do tempo  saberei . "